29.11.04

Sobre carinho e amizade

Três pessoas muito especiais estavam juntas vivendo um momento mágico, único. Eu deveria estar lá, mas fui impossibilitado por motivos absolutamente alheios à minha vontade. Na minha ausência, elas me ligaram. Cada uma delas veio ao telefone para dizer que me amava.
(...)
Naquela noite, isso fez toda a diferença.

25.11.04

Por quê fui à Floresta

Eu pretendia fazer hoje um protesto virtual contra o calor infernal que faz no Rio de Janeiro. Mas pouco antes chegar por aqui, deparei-me com o texto de uma grande amiga, preocupada com o passar dos anos, a ânsia de viver, e o medo de chegar à velhice com a impressão de não ter feito tudo o que podia para ser feliz. São preocupações legítimas. Acho que todos pensamos nisso em algum momento. Quem não pensa, deveria pensar. A leitura me lembrou de um filme que marcou minha vida em vários sentidos. A primeira vez que senti vontade de fazer teatro em toda minha ainda breve existência foi ao ver trechos de "Sonho de uma Noite Verão", de Shakespeare, encenados em "Sociedade dos Poetas Mortos". Que eu tenha experimentado a felicidade pisar pela primeira vez num palco participando justamente de uma montagem dessa peça é uma outra história a ser contada. O exemplo é só para ilustrar o quanto o filme significou para mim. Considerem que, naqueles tempos, eu era o feliz estudante de um rígido colégio para moços, interessado em literatura e poesia; e imaginem o grau de identificação que tive com os personagens da obra. Bem... o velho clichê Carpe Diem não precisa ser novamente lembrado e repetido. Letras Mortas não se prestará a isso. Mas vou tomar a liberdade de reproduzir algumas linhas citadas no roteiro, que têm muito a ver com o assunto em questão. Espero que deixem minha amiga - e todos que passarem por aqui - com o espírito um pouco mais leve:

"I went into the woods because I wanted to live deliberately. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life... to put to rout all that was not life; and not, when I came to die, discover that I had not lived." - Henry David Thoreau

Com a livre tradução do jovem filósofo contemporâneo: "Eu fui à Floresta porque queria viver deliberadamente. Eu queria viver profundamente, e sugar a própria seiva da vida... expurgar tudo o que não fosse vida; e não, ao morrer, descobrir que não havia vivido"

E ainda os versos de Robert Herrick:

To the Virgins, Make much of Time

Gather ye rosebuds while ye may,
Old time is still a-flying,
And this same flower that smiles today,
To-morrow will be dying.

The glorious lamp of heaven, the sun,
The higher he's a-getting,
The sooner will his race be run,
And nearer he's to setting.

That age is best which is the first,
When youth and blood are warmer;
But being spent, the worse and worst
Times still succeed the former.

Then be not coy, but use your time,
and while ye may, go marry;
For having lost just once your prime,
You may for ever tarry.

Essa eu não vou traduzir porque vai dar mais trabalho, e estou de saída para a academia, o que para mim representa uma significativa porção do conceito de "Aproveitar o Dia". Faça você o mesmo, seja como for.


22.11.04

Meninos, eu vi! (e gostei!)

Três vivas para a loiraça russa de olhos verdes.
Três vivas para a morenaça russa de olhos azuis.
Santo Deus! Será que por lá todas as mulheres são assim?!
O judoca e ex-agente da KGB Vladimir Putin visitou o Brasil nesta segunda-feira. Reuniu-se com o presidente Lula e formalizou seu apoio a que os tupiniquins tenham um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, por sua importância estratégica como país continental e líder natural da Amárica Latina. Mas suspender o embargo à carne brasileira que é bom... nada. O curioso é que, depois de visitar o Corcovado e o Maracanã, o manda-chuva russo encerrou sua visita oficial... numa churrascaria. E se esbaldou na picanha que eu sei, porque estava lá.

19.11.04

Uma grande e íntima revelação

Carlos Lessa foi destituído da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social nesta quinta-feira. Para os leitores menos afeitos ao noticiário, vai aí minha singela contribuição para que se mantenham atualizados sobre os acontecimentos do país. O que isso muda na sua vida? Pouca coisa ou quase nada. Na verdade foi uma decisão política, e o velho professor já estava na marca do pênalti há muito tempo. O substituto, Guido Mantega, não é tão simpático e afeito a declarações de efeito, mas é cortês, não acho que teremos problemas de cobertura jornalística com ele. Mas o assunto aqui não é esse. O assunto é uma grande e íntima revelação pessoal, que só terei coragem de fazer ao fim texto. É algo de impacto, forte; se você é cardíaco(a) ou tem estômago fraco, recomendo que cesse a leitura e volte outro dia. Voltando ao Lessa... sua saída me rendeu um plantão na sede do BNDES. Foram horas e mais horas de não-trabalho, sentado na sala de imprensa com jornalistas de vários outros veículos esperando informações oficiais que tardavam a chegar, alimentando vãs expectativas sobre a possibilidade de uma entrevista coletiva que - todos sabíamos desde o início - não iria acontecer. O lado ruim: um dia improdutivo. O lado bom: a chance de colocar o papo e as besteiras em dia com alguns colegas que valem tão pouco quanto eu. Dei sorte nesse plantão. Acho que há muito não me divertia tanto em horário de trabalho. Nesse sentido, pode-se dizer que foi um dia de dinheiro-fácil (...) Mais ou menos. A verdade é que esses plantões têm sempre um nível elevado de stress: chefia ligando toda hora, olho ligado em Brasília para saber se alguém fala por lá sobre o assunto em questão, boatos que vêm e vão sobre o que de fato a fonte está fazendo ou vai fazer. Nunca é um dia relax, mesmo que nada aconteça. É preciso estar mais atento a tudo, o tempo todo. Mas avancemos a meu drama pessoal... Chego em casa depois de um dia desses, obviamente cansado; nem tanto física, mas mentalmente, e encontro minha mãe dizendo que precisa ter "uma conversa séria" comigo. Ione e eu não nutrimos o hábito de discutir a relação. Nos damos ótimamente bem, e ela até respeita minha privacidade - tanto quanto é possível para uma mãe, o que às vezes é muito pouco. Mas vá lá, eu também não tenho porque criar tempestades. Mas o fato é que ela afirmou estar muito triste comigo, o que me preocupou. Cansado e agora apreensivo, indaguei o motivo: disse-me que tinha encontrado, pendurada para secar no meu box, uma cueca furada. E começou a falar seriamente sobre como eu - graças a Deus - não tinha motivo ou necessidade que justificasse uma tal peça em petição de miséria. Tentei explicar que, logicamente, a maioria das minhas cuecas está em ótimo estado de conservação, mas que de fato eu mantenho algumas furadas ou puídas porque são muitíssimo confortáveis em noites nas quais a roupa íntima certamente não virá à tona. Não se deu por satisfeira, e disse-me que compraria cuecas novas. Foi só neste momento que minha mãe de fato levou uma bronca. Um, porque fui educado por ela mesma a cuidar de minhas cuecas desde moleque, e não dou a ninguém o direito de se meter nisso. E dois porque, ao fim de um dia cansativo, o mínimo que ela poderia fazer era me apresentar um motivo realmente grave para armar tamanho circo. Então é isto. Está aí a grande revelação pessoal: Glauco Paiva, por vezes, usa cuecas furadas. Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra.

16.11.04

Amor, só de mãe!

Dizem que por trás de todo grande homem está uma grande mulher. Eu, na verdade, ainda estou na dúvida. Tem dias em que me olho no espelho e vejo um grande homem. Em outros vejo apenas um homem grande; quando não um meninão, e olhe lá. Seja como for, sei quem é a grande mulher a quem devo tudo que consegui até aqui. A mama apaga velinhas hoje. Parabéns à D. Ione.

13.11.04

Feel the Force

Chegou aos cinemas do Rio e de São Paulo nesta sexta-feira o teaser do Episódio 3 de Guerra nas Estrelas. Com o título Revenge of the Sith, o filme vai mostrar a derrocada final de Anakin Skywalker e a queda para o Lado Negro da Força que vai transformá-lo no temível Darth Vader. Grande parte dos fãs de carteirinha se decepcionou com os roteiros dos dois últimos lançamentos de Star Wars. Eu inclusive. Mas achei graça em ouvir o futuro Vader dizendo que o grande problema da Galáxia Distante era a falta de altruísmo. E babei ao ver Mestre Yoda empunhando um sabre de luz. Pois bem... Acho que esse terceiro filme tem tudo para ser "O Império Contra Ataca" da nova trilogia. Pelo que vi no trailer, o tom me parece mais sombrio, e não poderia ser diferente - independentemente de como a trama será conduzida, o mau vai vencer: Skywaker vai cair, assim como a República. O Conselho Jedi será exterminado, e Palpatine deixará as maquinações de bastidores para assumir o lugar de Imperador. Em tempo: o teaser traz um corte rápido do Grão-mestre Sith brandindo uma lâmina luminosa - vermelha, como manda a etiqueta dos vilões da série. As batalhas espaciais estão realmente vibrantes, e as tropas clônicas em deslocamento ao som da marcha imperial me deram arrepios. Nunca George Lucas foi tão Leni Riefensthal. E, só a título de cerejinha, é possível ouvir um "Yes, master..." na voz de James Earl Jones. Para quem vai dizer que Star Wars é cinema pipoca, o meu protesto: a história é um épico mitológico, com o recheio de inúmeras referências religiosas. Um trabalho antropológico universal de primeira linha. Não fez tanto sucesso à toa. George sabia que estava tocando as cordas certas. Não foi sem motivo real que o sujeito revolucionou o conceito de marketing cinematográfico quando, em meados dos anos 70, trocou o fixo de direção por direitos em vendas nas cópias da trilha sonora e produtos associados, como brinquedinhos, camisas e afins (...) Deu para entender de onde veio o dinheiro que construiu a Lucas Arts, Lucas Films, Lucas Games, etc, etc, etc? E tem mais para quem gosta: lá nos anos 90, quando anunciou que filmaria a primeira trilogia, o velho Jorge disse que não produziria os três últimos filmes da série - sim! para quem não sabe, tem mais depois de "O Retorno de Jedi" - mas eu já ouvi alguns boatos sobre uma possível mudança de planos... Olha, não sei de que lado da Força você joga. Mas Star Wars, mesmo quando decepciona os puristas, tem que ser visto. The Saga continues on May 2005. Até lá, may the Force be with you. Always.

11.11.04

Woman in Red

Essa eu achei navegando por aí. A definição não está lá grande coisa, mas o conceito é sugestivo e - por que não dizer? - atraente; apesar do clichê em vermelho...

Saiu daqui

8.11.04

Peixe cru com estilo

O pessoal do Rio de Janeiro deve, quando tiver a chance, experimentar o Tanaka da Lagoa. Eu sou daqueles que gosta de comer com vista, e adorei. Mesmo com a chuva, o espaço é muito bom: clean, sofisticado, e o sushiman não faz feio. E comer com hashi é sempre uma curtição. A conta não é barata, mas o jantar também não custou os olhos da cara. E em tempos de emancipação feminina, o progarama é perfeitamente viável financeiramente. Try the raw fish in a room with a view. A view to a kill.

4.11.04

Sobre ontem à noite.

Estava lá. Incontestável. Me olhando como a desafiar-me. Jogando-me na cara o passar das décadas; negando-me os feitos da juventude, afirmando vãos todos os meus esforços por uma vida saudável - quase atlética, muitos diriam. Atestava, desdenhoso: "Nunca mais as enterradas nas quadras de basquete! Nunca mais os maiores pesos da academia quando chegar o verão! Nunca mais os esportes radicais nas férias!" Parecia dizer-me que eu deveria desistir logo dessa mania de mente sã em corpo são, pois minha anatomia iniciara a viagem de ida em direção à maturidade, enquanto eu insistia, inutilmente, em refutar o já tão óbvio conceito de que havia - vejam só! - me tornado um adulto. Estava lá. A semente do pânico estético. A maldita pétala alva da idade, da flor inevitável que chega sem aviso na melhor das nossas Estações, com o peso dos anos. Peso sob o qual se curvam os mais indômitos mortais. Encarava-me. Provocava-me. Assaltava-me a fronte negra em vilipêndio. O primeiro fio de cabelo grisalho.

Passei-lhe a tesoura.

2.11.04

A milhas e milhas distante

Ah... o impagável prazer de se trabalhar num feriado, e ter a consciência cívica de que, enquanto todos se divertem, você está fazendo a sua parte para que a empresa e o país progridam economicamente. Ah! Esta sensação única de liberdade que vem da solidão. Você num estúdio, falando para audiência residual; você ao computador, teclando para ninguém ler, porque seus amigos estão todos viajando ou curtindo uma praia.
Alô! Alô! ALÔÔÔÔÔÔÔ!!!
Tem alguém aí?!
Socorro! - Me salvem de mim mesmo!!!
Sem resposta.
Que felicidade...

A Ópera dos Três Vinténs

Bem... A peça foi montada em outubro na Casa das Artes de Laranjeiras. Um processo que começou com muito tesão, mas que por motivos alheios e absolutamente impessoais acabou perdendo um pouco de peso na minha avaliação. O espaço era pequeno e o horário incompatível. Como eu já não estava tecnicamente muito saftisfeito, acabei não chamando ninguém para assistir. A minha mãe foi porque se lembrou de me perguntar quando diabos eram as apresentações. A falta de publicidade me rendeu belas broncas dos amigos mais próximos, mas eu já pedi desculpas. Estou ensaiando outra. Se ficar apresentável eu juro que divulgo, tudo bem? De qualquer forma, esse aí sou eu, ou Mackie Navalha, como preferirem...Bandido, mas gente boa.

Balada do Cafetão - Música de Kurt Weill

Mackie: Bons tempos são aqueles que não voltam.
Como um casal vivíamos em harmonia,
Nos esforçando juntos de lua a lua:
Eu era o chefe e ela era a vadia.

Pode ser diferente, pode ser igual.

Quando chegava outro freguês eu lhe cedia
A cama e muito cortês eu lhe dizia:
"Meu senhor, a casa é sempre sua, por favor!"
E vendo a grana eu ria...

Foi num bordel de fina freguesia
Onde fizemos nossa moradia!

Jenny: Bons tempos são aqueles que não voltam.
Trepávamos sem conta e sem perdão.
E ele foi gastando o nosso capital,
Botando as minhas roupas todas no leilão.

Pode ser diferente, pode ser igual também.

Fiquei tão brava, não queria ficar nua.
Perguntei: "rapaz, me diz qual é a tua?"
A resposta foi uma porrada
Que me deixou por dias derrubada...

Foi num bordel de fina freguesia
Onde fizemos nossa moradia!


Então tá. Eu tenho que admitir - teatro é mais ou menos como sexo:
É bom... até quando é ruim.

29.10.04

Personagem Clarice e o homem nu

Há tempos Letras Mortas não faz reflexões políticas pretensamente sérias. Vamos então a uma looonga série de considerações...
O secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, anunciou nesta quinta-feira que a viúva de Vladimir Herzog, Clarice, reviu as fotos que seriam do jornalista morto (1975) em cativeiro militar e não mais identificou o marido. Há coisa de duas semanas, o Correio Braziliense publicou fotografias de uma tal série guardada em um arquivo "secreto" do governo, trazendo depoimento de Clarice em que ela reconhecia o parceiro em uma das chapas. A declaração me chamou atenção, porque ela dizia não estar muito certa com relação a duas das fotos, mas atestava - então - ser Vladimir um prisioneiro que aparcia nu em uma das imagens. Que agora venha afirmar que a mesma foto não retrata Herzog me deixou assaz intrigado. Aparte de qualquer tentativa de sátira pornográfica com tão sério assunto, uma viúva que diz reconhecer seu homem em nu frontal merece crédito. Como pode ela, uma semana depois, mudar de idéia? As teorias de conspiração começam a espocar em minha mente doentia.
O jornalista e cientista político Maurício Santoro publica texto em Os Conspiradores (25/10) no qual aventa a hipótese de a Agência Brasileira de Inteligência ter dado início a uma campanha de desinformação sobre o assunto. Um braço do governo tentando frear toda a discussão sobre o processo de abertura de arquivos que Deus sabe o que escondem... Mais sobre isso adiante. A primeira pergunta que faço é: de onde saíram as fotos? A indagação me parece pertinente porque o real jornalismo investigativo anda em baixa no Brasil. As fitas do escândalo Waldomiro Diniz, por exemplo: saíram das mãos de um senador da oposição para a redação da revista Época. Todo mundo no meio profissional sabe disso. Manobra política contra Dirceu. É claro, com acesso ao material, e a devida apuração do caso, é dever da imprensa informar. Isso não se discute. Mas é preciso considerar que, desde a morte de Tim Lopes, o jornalismo brasileiro ficou carente de reportagens realmente originais e investigativas lato senso. A pulga atrás da minha orelha, sobre a qual não tenho nenhuma evidência, se não conjecturas circunstanciais: o presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, João Luiz Duboc Pinaud, vem há tempos imemoriais defendendo a abertura dos tais arquivos, mas o assunto estava meio... morto, na falta de palavra melhor. Fato: os documentos fotográficos já tinham vazado em 1997; não eram assim tão secretos. Quando aconteceu, ninguém percebeu a semalhança entre Vladimir Herzog e o homem nu.... Mas se podemos pensar que a ABIN abriu ações para abafar o caso, poderemos pensar também que - ao início de todo o processo - Pinaud, ou outra fonte interessada no acesso público aos arquivos secretos da ditadura, procurou o Correio para soprar uma dica e reapresentar o material? E se este for o caso: que preço se paga pela memória de um país? Os tão falados direitos humanos justificam estratégias maquiavélicas? O bem como fim releva o mal como meio? Digo mal porque se toda essa história não passou de um balão de ensaio - com intervenções contrárias de pontos distintos do mesmo governo - então estamos mesmo perdidos, porque o jogo de bastidores vai novamente postergar toda e qualquer iniciativa concreta sobre a abertura, podem apostar. A Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos é órgão da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. E a Agência Brasileira de Inteligência... bem, essa ninguém sabe muito bem o que é, mas se ela tem partido nesse imbróglio, parece então uma semente tortamente germinada da bagunça que foi o SNI. Acho que nem Golbery ficaria orgulhoso. Mas vejam: seja como for, é governo batendo cabeça com governo. Pior que filme dos Trapalhões.

Dito tudo isso, ainda quero saber o seguinte: a essa altura dos acontecimentos, se não é mesmo o Herzog, então quem é o sujeito nas fotos? Ele certamente tem - ou teve - família, e sua memória tem o mesmo valor que a do jornalista.
Deixando de lado as teorias de conspiração, tenho a dizer que o Correio Brasiliense, a meu ver, fez um jornalismo correto. Ouviu a viúva, e publicou o depoimento - na minha análise, contundente. Como pode a mesma viúva, uma semana depois, dizer "Eu fiquei aliviada. Aliviada por saber que então ele não passou por aquilo. Mas o Vlado teve mais essa função política, tão importante. Os arquivos secretos precisam ser abertos sim, são mais de 100 famílias que esperam esclarecimentos e toda uma sociedade. O caso teve essa importância, de cobrar essa dívida do Estado". Ora, por favor, mais chocante do que a foto de um homem nu é a imagem de um homem enforcado na cela, exibindo marcas de tortura, associada à versão de que ele teria "cometido suicídio". E foi isso que os militares venderam quando Vladimir morreu. Já isso lhe garantia importância simbólica na discussão política sobre anistia e abertura. O pênis - dele ou alheio - não precisava vir a público para (re)suscitar essa mesma e inegável importância.
Uma cobrança por demais agressiva a Clarice? Talvez. Mas ela precisa se decidir. Toda a prosódia da publicação dessas fotos está muitíssimo mal contada. E não é com histórias mal contadas que vamos levar à frente a busca de verdades sobre tão obscuro período da memória nacional. O que para muitos é jogo político, para outros é dor de família. Eu não tive parentes mortos ou exilados pela ditadura. Não tenho Vlado como ícone profissional ou escrevi esse texto como ode à sua memória. Aliás, conheço de Vladimir Herzog o que Elio Gaspari me contou em "Ilusões Armadas", e pouco mais. Mas sei que ele é um símbolo. E símbolos não devem ser tão levianamente evocados, sob risco de perderem a força. E a causa da qual Vladimir é símbolo merece não apenas atenção mas... carinho. Finalmente, o sobrenome de Clarice é Herzog, não Sterling. Ela não é agente federal, e não pode, mesmo que inadvertidamente, deixar-se envolver em tramas de Silêncio dos Inocentes.

27.10.04

Arrumando a Casa

Letras Mortas ganhou Imagens Vivas: uma seção exclusivamente dedicada aos Fotologs amigos. No Mentes Criativas ficam agora somente os blogs parceiros. Alguns autores altamente férteis figuram nos dois espaços da recém-reformulada barra lateral. Vale a pena conferir, especialmente agora com a casa arrumada. Tem gente nova pintando por lá também: o Saraiva diagnostica o Odin Darkside e o Caleidoscópio. É o tipo de médico que todos nós gostaríamos de ser, e ao qual odiamos entregar nossas namoradas. Mas como é meu amigo, nele eu até confio. A (Clau)Dinha é uma menina linda que passou pela minha vida. É bom ter notícias dela de novo. É a arquiteta do My Mind Knows It. Os textos sempre me parecem ter uma pitada de Bridget Jones; vai entender... O Vitor é um doente psicopata que se propôs a criativa busca de melodias irritantes. É o editor-chefe do Repolhópolis. Nas últimas semanas, as atualizações são freqüentes. Visite ainda o Gabriel em Zenn-la. Ele é nerd, adora quadrinhos e filmes de terror, mas acredite: ele sabe do que está falando. Tem o olhar de um garoto de 13, e a sensibilidade de um tiozão-firmeza aos mid-forties. A Bia e suas gatas arranharam um lugar entre os flogs da casa: é o Anjo Azul. Deixei por ali também o link para um similar só de tattoos. Talvez eu encontre alguma arte que me ajude a tomar coragem de entrar na agulha...
Ah! Carimbei, para terminar, um banner pela autonomia do Rio de Janeiro. A idéia nunca vai vingar, mas é ótima. Com todo respeito: abaixo as cidadezinhas barangas do interior!

26.10.04

Clarice Linspector

Achei absolutamente genial:

"Quero morrer com vida. Juro que só morrerei lucrando o último instante. Há como quero morrer... mas nunca morrer antes de realmente morrer.
(...)
Porque é cruel demais saber que a vida é única e que não temos como garantia senão a fé em trevas; por isso respondo com a pureza de uma alegria indomável, e a minha própria morte e a dos que amamos têm que ser alegres - não sei ainda como, mas têm que ser.
Aliás, não quero morrer. Recuso-me contra Deus. Vamos não morrer como desafio?
- Não vou morrer, ouviu, Deus?! Não tenho coragem, ouviu?
...Não me mate, ouviu?
Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe como nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como uma resposta, um insulto. Uma coisa eu garanto: nós não somos culpados. Esta noite sonhei que estava sonhando. Será que morrer é assim? O sonho de um sonho de um sonho?
Ah! Viver é desconfortável. Tudo aperta. O corpo exige, o espírito não pára. Viver parece ter sono e não poder dormir. Viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de alma... Estou tão perdida. Mas acho que é assim mesmo que se vive.
Acho que vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada...
Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói, mas a gente finge que não dói. Estou com tantas saudades de Deus!
Morrer na Primavera... morrer de saúde... morrer de vida... estou com muita saudade de Deus."

É isso. Algumas pessoas simplesmente têm o dom.

24.10.04

E tem aqueles dias engraçados...

...em que, entre cerca de seis milhões de pessoas residentes na cidade, a vida te joga na cara - da maneira mais casual - justamente aquela que você achava, e até esperava, que não fosse ver por um bom tempo. E os ritos interpessoais permanecem exatamente os mesmos. Tudo como sempre foi, por anos e anos a fio. É como se a Roda do Destino completasse uma volta bem na sua frente, e parasse para dizer em alto e bom som: "welcome to the Revolution, muthafucker!"
E você pode correr, mas não pode se esconder.
São engraçados, esses dias. Muito engraçados mesmo.

20.10.04

Esse estranho dublê de retrato

Resolvi deixar a barba crescer, e também o cabelo - ou que restou dele, pelo (pêlo?!) menos. Quem convive comigo sabe que esse tipo de decisão tende a não durar: de vez em quando me dá uma louca e eu entro em ciclos de crescimento capilar, para logo depois voltar à boa e velha máquina zero, com passagens pelo cavanhaque ou o goaty. Uma vez até investi num bigode, mas as minhas melhores amigas - sim, eu tenho duas, morram de inveja! - falaram sério que aquela não tinha sido uma boa idéia. Seja como for, minha barba já está entrando na segunda semana, e vai continuar por aí uns tempos. Acostumem-se. A verdade é que ando numa fase de relaxamento estético. Até na academia estou meio parado, pegando menos peso... Patinação nos fins de semana, disso não abro mão desde que comprei meu in-line. Reforcei a dedicação e o gasto calórico nas disciplinas dramáticas que envolvem o físico. Acaba funcionando como uma anti-ginástica, talvez. Acho que estou às vésperas de uma "Operação Verão". Deve ser isso. Relaxo agora, porque logo vou estar malhando com tudo a que tenho direito. A falta de hiper-calóricos está me deixando menos ativo, em todos os sentidos (...) Ok, ok, não em todos os sentidos. Minha cara de sono virou comentário na rádio e no curso de teatro. Tô nem aí. Para comemorar a fase relapsa, vou adotar o look ermitão safado. Quem já viu diz que eu fico com cara de terrorista árabe. Mas fiquem tranqüilas e tranqüilos: vou continuar sendo o mesmo sujeito legal. Só que barbado.

Por que diabos eu resolvi escrever sobre isso?
Sei lá, ora essa! Porque não tinha nada melhor pra fazer!!! - E você?! Qual é sua desculpa para ter lido essa baboseira até aqui?

18.10.04

In the End

Mais uma daquelas músicas que fazem todo o sentido se ouvidas no momento certo... Isso, ou simplesmente o conjundo da obra me agrada. Essa é do Linkin Park:

It starts with one thing
I don't know why.
It doesn't even matter how hard you try.
Keep that in mind
I designed this rhyme to explain in due time
(All I know)
Time is a valuable thing
Watch it fly by as the pendulum swings
Watch it count down to the end of the day
The clock ticks life away
(It's so unreal)
Didn't look out below
Watch the time go right out the window
Trying to hold on, but didn't even know
Wasted it all just to watch you go
I kept everything inside and even though I tried, it all fell apart
What it meant to me will eventually be a memory of a time when

I tried so hard, and got so far
But in the end, it doesn't even matter
I had to fall, to lose it all
But in the end, it doesn't even matter

One thing, I don't know why
It doesn't even matter how hard you try.
Keep that in mind
I designed this rhyme, to remind myself how
(I tried so hard)
In spite of the way you were mocking me
Acting like I was part of your property
Remembering all the times you fought with me
I'm surprised it got so far.
Things aren't the way they were before
You wouldn't even recognize me anymore.
Not that you knew me back then
But it all comes back to me (in the end)
You kept everything inside and even though I tried, it all fell apart
What it meant to me will eventually be a memory of a time when

I tried so hard, and got so far
But in the end, it doesn't even matter
I had to fall, to lose it all
But in the end, it doesn't even matter


I've put my trust in you
Pushed as far as I can go
And for all this
There's only one thing you should know

I tried so hard, and got so far
But in the end, it doesn't even matter
I had to fall, to lose it all
But in the end, it doesn't even matter

15.10.04

Boys with Toys II

Depois de longo e tenebroso inverno na casa do consertador de brinquedos do reino não-tão-distante da Fasalândia, meu video-game voltou para casa. Meu lado criança - que muitos poderão dizer, é a porção maior da minha fisicamente espaçosa pessoa - está pulando de alegria. O Playstation 2 é um ótimo companheiro para tardes chuvosas em desocupados fins de semana, quando os olhos ficam cansados dos livros, que também são grandes amigos, mas às vezes não tão divertidos. É pena que o pequeno Fasa vai estar de plantão no weekend. Mas tudo bem, ele já fica feliz só em saber que seu amiguinho está de volta, sem seqüelas permanentes. Três vivas para o Playstation 2!

13.10.04

Dia das Crianças

Duas garotinhas de oito anos conversam no quarto:
- O que você vai pedir no Dia das Crianças?
- Eu vou pedir uma Barbie, e você?
- Eu vou pedir um O.B.
- O.B.?! O que é isso?!
- Nem imagino, mas na televisão dizem que com O.B. a gente pode ir à praia, andar de bicicleta, andar a cavalo, dançar, ir ao clube, correr, fazer um montão de coisas legais, sem que ninguém perceba...

Dogão é mau!

10.10.04

Ostara

Os puristas - se é que eles existem entre os pagãos - vão dizer que perdi há semanas o início da Estação, e que o próprio Verão já está batendo à porta. Mas eu acredito que certos fatos na vida não podem ser ignorados, principalmente quando vêm em sucessão tão significativa. Estou terminando um processo de ensaios e apresentações, para começar um novo, que deve durar - vejam que curioso! - até o Solstício. Estou fechando semanas de trabalho intenso com três dias de folga em que pude equilibrar um monte de coisas, e enfim pensar um pouco em mim, e em tudo o que anda acontecendo na minha vida nos últimos meses - sim, o déficit era assim tão grande. Mais importante, acabo de passar a limpo uma história de 15 anos. Não que eu tenha colocado um ponto final no complicadíssimo enredo, mas substituí as reticências. Um ponto, ainda que parágrafo, é sempre melhor do que as malditas reticências; e ter a chance de encontrar respostas, mesmo que não definitivas, para questões pessoais é sempre bom. Amadurece-nos. Pelo menos eu penso assim. Para não mencionar o alívio de finalmente ter a certeza de que você fez o que tinha que fazer para evitar cheques pré-datados de Karma que, você sabe, só poderão ser quitados em outra vida. A não ser que alguém tome agora uma atitude quanto ao assunto. Coragem. Coragem para o novo. Por tudo isso, sento-me ao computador às três da manhã com espírito limpo. Tabula rasa. E isso abre milhões de possibilidades. A paz final de tudo aquilo que é toca o caos do porvir. E nós temos uma nova equação se abrindo. Tudo que eu queria era acender uma fogueira e dançar, mas no momento um incenso vai ter que bastar... É pouco, mas o o Sabbath está em mim, não há dúvida. Mesmo que oficialmente o início da Estação tenha passado. É tempo de equilíbrio entre luz e sombra. É tempo de renovação. Com calma - e se eu tiver sorte, com harmonia - tudo em mim se prepara para Beltane, e logo depois para o calor do Verão. Mas é preciso não ter pressa. O Ciclo nunca se atrasa. A Roda está sempre girando como deve. Depende apenas da Lua e do Sol de cada um de nós. Feliz Primavera.