29.11.05

Eu, ator

Então é isso. Esta noite me tornei um ator... profissional?! Mas será que foi hoje mesmo? Engraçado... já me senti mais "ator profissional" antes, em outros trabalhos, com os quais me identifiquei mais, me dediquei mais, e ao fim do processo, até me diverti mais. Mas a escola diz que agora sou um ator profissional. Antes de descerem as cortinas, os aplausos do teatro lotado me disseram tão-somente "Parabéns. Você se desafiou a fazer isso, e conseguiu. Mais uma etapa vencida". O que não deixa de ser bom, by all means. Você se aquela reta final de faculdade em que tudo o que a gente quer é entregar a monografia e cortar o cordão umbilical, mas quanto mais esforço, mais longe parece o objetivo? Pois é. Ao menos, pelo que consta, objetivo alcançado. Agora basta esperar o diploma e tirar o registro.
Confesso, entretanto, que esta última montagem não me agradou. Mas talvez, justamente por isso, possa ser considerada a última real lição da escola de teatro, uma que eu tive que viver na prática para aprender. Mais de uma vez ouvi de professores que a satisfação com o palco vinha muito das escolhas que se faz na vida, o que significa dizer que, se você não é um ator-desempregado-louco-atrás-de-qualquer-papel, aceite apenas trabalhar com textos nos quais você realmente acredita, pelos quais se sinta instigado. Talvez, ao saber da viagem a Washington e do atropelo que isso traria a todo o processo, adiar minha formatura tivesse sido uma melhor escolha. Mas eu, geminiano, fiquei morrendo de medo de não voltar (...) Bah!! - Isso já não vem ao caso... Fica a felicidade aliviada de saber que não sou um ator-desempregado-louco-atrás-de-qualquer-papel - Graças! - e a então promessa pessoal de que, daqui por diante, se novos papéis surgirem, procurarei fazer apenas boas escolhas. A salutar necessidade de boas escolhas... taí: essa foi a última grande lição do curso de teatro que, oficialmente, completei hoje. Há, na escola, uma brincadeira-séria que diz "A Casa das Artes de Laranjeiras orgulhosamente apresenta mais uma turma de atores sem emprego". Apesar de todos os atropelos e algumas desavenças, espero que dessa trupe - que até hoje não sei exatamente se posso chamar de minha - não saia nenhum desses. Quanto a mim, agradeço apenas por ter experimentado o palco, um prazer indescritível nos momentos em que eu realmente estive lá de corpo e alma. Sem falsa modéstia, acredito ter me tornado um belo ator. E até que a Bárbara Heliodora se digne a fazer uma crítica negativa de qualquer trabalho meu, ninguém vai me convencer do contrário. Isto posto, aplausos para mim.
E... alguém aí conhece um grupo ou companhia que trabalhe seriamente, ensaiando em horários beeeeemmmm flexíveis?

26.11.05

O Resumo da Ópera

A vantagem de ter uma namorada com a mesma idade mental que a minha é que ela me leva para ver Harry Potter no fim de semana da estréia (...) É isso.

23.11.05

Sem direito a uma Kaiser antes

Minha vovó dizia - será que era ela mesmo? Bem, não importa. Alguém dizia, e a coisa ficou gravada no meu subconsciente idio-coletivo (sim, essa eu acabei de inventar. Legal, né? Eu adorei!) - que a oportunidade é uma mulher louca e careca, com apenas uma franja à guisa de cabelo. Então, se você não a agarra de frente quando ela passa por perto, pode começar a rezar para que ela, dentro de seu caótico e errático ciclo , resolva passar novamente por você; o que pode ou não acontecer.
Pois bem...
Uma oportunidade bem grande, vamos chamar assim... uma senhora oportunidade, acaba de me pegar pelos ombros e sacudir bem forte. Bateu na minha cara como quem diz "acorda!!", e de tanto esforço desalinhou a franja. Está agora me olhando com belíssimos olhos verdes, indagando-me em silêncio que atitude vou tomar agora.
Xeque. Minha vez.
Hoje me sinto muito bem, mas só com um pouquinho de medo.

17.11.05

...Estarei ficando velho?

Antes de mais nada, que fique claro: sou um patriota. Posso não adotar posições políticas radicais, até por uma óbvia restrição de ética profissional, mas gosto de pensar o país, e sou apreciador de seus símbolos, a começar pelo Hino Nacional, que reputo ser uma belíssima obra de poesia. Pois nesta quinta-feira passei por uma situação curiosa: cobrindo um ato de apoio a José Dirceu no Rio de Janeiro, fiquei surpreendentemente contrariado e, por que não dizer, enraivecido, ao ouvir centenas de petistas encerrarem a cerimônia cantando em coro à Pátria Mãe Gentil. Pareceu-me a a apropriação indébita de um símbolo maior, do país, com o propósito específico de render homenagem a um personagem que - a parte de toda a trajetória política de luta democrática - parece mesmo ter participado dos bastidores de um dos mais lamentáveis episódios da história recente do Brasil. Sem dúvida, para toda aquela turma, deve ter sido apenas natural cantar o Hino Nacional para marcar uma posição política que muitos devem genuinamente - sem trocadilho, por favor - acreditar ser a melhor para o futuro da nação. A questão é: poderiam eles fazê-lo à revelia de quem, presente ali ou não, falha em ver o PT como uma boa alternativa? Por que não cantaram o hino do partido? Não foi a primeira e certamente não será a última vez que ouvirei, a trabalho, a inspirada obra de Joaquim Osório Duque Estrada e Francisco Manuel da Silva. Mas desta vez, de pronto, e até mesmo para minha surpresa, confesso, não me vieram gratas lembranças cívicas - revoltei-me. Não cantei. Saí às pressas do auditório. Será que fui por demais purista na interpretação do que possa significar tão-somente uma música como catalisadora de vontades comuns, ou alguém entre a minha meia dúzia de leitores enxerga sombra de sentido ou razão em minha quase-cólera? Por certo, o Hino é de todos nós brasileiros, e eles tinham o direito de cantá-lo. Mas eu fiquei muito triste em pensar que não o estavam entoando por um bom motivo... Meu Deus, será que estou virando um reacionário rabugento?

14.11.05

No pain, no gain

Depois de um mês de férias, volto à academia, com toda aquela falta de força e ritmo tão característica dos sedentários. Me sinto meio estranho. Subo à balança e lá vem a primeira má notícia: quatro quilos a mais, que certamente não são de massa magra. Triste. Procuro a professora para fazer uma nova série. Tenho idéias para os próximos meses, e um planejamento para organizar a malhação. E o que ela me diz? "Não sei se podemos aplicar esta série. Isso que você quer fazer é coisa de marombeiro"
COMO ASSIM, EU NÃO SOU MAROMBEIRO?!?!?!?!?!?!
Todas as luzes vermelhas se acenderam, todos os alarmes soaram no último volume. Está tendo início a Operação Verão 2006. Me aguardem.

Em verdade vos digo

Diz o jovem filósofo e conselheiro sentimental: acreditem, crianças, um bom diálogo é sempre a melhor solução.

7.11.05

Puxando a cordinha

Para tomar emprestadas as linhas de alguém que entendia muito mais do que eu sobre as angústias cotidianas do ser humano:
Tenho andado distraído, impaciente e indeciso.
Perguntas demais, projetos demais, respostas de menos. Onde será que eu vou estar amanhã?
Eu sei que ninguém vai poder responder, mas eu quis perguntar assim mesmo, só pra ver se o Cosmos oferece algum tipo de manifestação clara e final... Até o momento, de frente para mais uma tela da redação, não veio resposta nenhuma. Nem telefone tocou.

1.11.05

O trágico pelo cômico

Eu sei, eu sei... Isso aqui anda às traças. Um, porque ando meio sem inspiração, e dois porque foi completamente absorvido por joguinhos demoníacos de PC. Até minha namorada virou uma fominha de computador. Tanto, talvez mais do que eu.
Mas atentem para essa saga da terceira idade, e me digam: não fosse a tragicidade da coisa... não seria cômico?
Assaltantes que estavam planejando um roubo de carga levaram uma ambulância em um dos acessos à Ilha do Fundão, na zona norte do Rio, nesta segunda-feira, e com o veículo um idoso surdo e sua acompanhante. A ambulância vinha do município de Paty de Alferes, na região Centro Sul do estado, trazendo treze pacientes para tratamento em diversos hospitais da capital. Quando o motorista chegava ao Hospital Universitário da UFRJ, bandidos armados fecharam a pista e anunciaram o assalto. A paciente Clea Cardoso, de 63 anos, usuária de uma bengala, teve dificuldade para descer, e quase foi levada também pelos criminosos. Além da ambulância da prefeitura de Paty do Alferes, os bandidos levaram um carro. O administrador de empresas Júlio Cesar Leal estava conduzindo o filho para o Aeroporto Internacional Tom Jobim, quando foi abordado. Ele conta que os criminosos estavam nervosos com a demora dos pacientes em deixar a ambulância à frente. O carro de Júlio Cesar e a ambulância de Paty do Alferes foram localizados ainda pela manhã perto de um dos acessos à favela Vila Joanisa, na Ilha do Governador. A unidade médica teve todos os bancos removidos para acomodar algum tipo de carga, provavelmente cigarros, segundo a polícia. Os bandidos abandoram os veículos durante uma troca de tiros, num local onde estava sendo descarregada uma remessa de maços. O idoso surdo e sua acompanhante foram liberados pelos criminosos logo depois do roubo da ambulância, mas não procuraram ajuda policial. Segundo o subsecretário de planejamento e integração operacional da Secretaria de Segurança Pública, Paulo Souto, as vítimas voltaram por conta própria a Paty do Alferes. O delegado não descartou a possibilidade de convocar o idoso e sua acompanhante a prestarem depoimento na Ilha do Governador, onde o caso foi resgistrado e o planejamento do roubo de carga está sendo investigado.

12.10.05

Pega no meu Athlon

Meu computador novo chegou. Eu sou uma criança feliz. Muito feliz. Obrigado ao sogrão pela consultoria e intermediação do negócio.

8.10.05

Georgia on my mind

Complicou para postar de Atlanta. A todos os amigos que estavam acompanhando minhas aventuras gringas por aqui, peco deculpas, e convoco a todos para uma mesa de bar em data a ser combinada em breve. Soh hoje, jah de saida, consegui tempo numa biblioteca publica para checar e-mails e passar pelo blog. Acabaram-se as reunioes, acabaram-se os dolares, a saudade eh muita, estou voltando para casa. Muita coisa ficou por ser vista - principalmente em Washington: museus, monumentos, coisas assim. No mais, a viagem foi super proveitosa. Vou daqui direto para o aeroporto, e domingo de manha volto a escrever diarios da Cidade Maravilhosa - o melhor lugar do mundo, nao importa aonde voce possa estar... See ya!

3.10.05

Diarios de Washington 2

Estejam avisados de que voltarei para o Brasil ainda mais insuportavel do que eu era quando sai. Depois de ser recebido pessoalmente pelo Secretario Geral da Organizacao dos Estados Americanos em seu escritorio, e de trocar cartoes de visita - para nao mencionar ideias - com o Vice-presidente da Camara Americana de Comercio, estou me sentindo um jornalista muito importante. Nao vou sequer mencionar que estou passeando de um lado para outro em um micro-onibus que tem todos os luxos de uma limosine... Gente, nem eu estou me aturando mais, e hoje foi soh o primeiro dia de trabalho. A unica lastima eh que, por aqui, nem mesmo um profissional tao inquestionavelmente importante quanto eu consegue um maldito teclado ABNT para postar. Eh o preco que se paga por ser um reporter de nivel internacional...

2.10.05

Diarios de Washington

Embarcar em um voo internacional no Tom Jobim eh experiencia absolutamente distinta do inicio de uma viagem domestica. A comecar pelo check in. As pessoas na fila exalam aquele ar de auto-confianca e indeferenca que, aparentemente, so mesmo as bolsas Vitton e os ternos Armani podem dar. Entao, la estava eu, entre casais despachando pranchas de surfe e velhinhos pesando tacos de golfe, sem mencionar a mulher de saia rosa combinando com a mochila da Barbie. Eu acho que soh consegui me misturar porque, depois de anos trabalhando com afinco nas aulas de interpretacao, consegui executar com perfeicao minha expressao 49: aquela que denota indiferenca com leves tracos de cansaco, tendo como sub-texto "ai-meu-deus-lah-vou-eu-de-novo-para-fora-do-pais-mas-como-sao-chatas-essas-formalidades-de-embarque-e-nao-me-importa-quanto-voce-tem-na-conta-porque-eu-tenho-mais". Estavam por lah dois distintos cavalheiros com bigode igual ao do Saddam Hussein: meu lado Jason Bourne logo os identificou como possiveis sequestradores. Estavam me olhando atentamente - na certa perceberam que eu era um agente federal a paisana. Mas acho que, quando descemos em Sao Paulo, eles foram tentar a sorte em outro aviao, com muito medo de mim. Como nem tudo sao rosas, a Varig despachou minhas malas erradamente, o que me levou a uma grande correria em Guarulhos, mas finalmente consegui embarcar para Atlanta. Ponto pacifico: comida de bordo eh horrivel, nao importa se voce estah num voo de longa distancia. E para nao dizer que soh nos brasileiros somos desorganizados, houve problemas tambem com a reserva do hotel na chegada em Washington. Mas, no fim de tudo, consegui me instalar. A cidade eh uma graca. Ontem mesmo fui passear de metro ate o shopping mais proximo. Havia atrasos nos trens, e eu nao achei o que queria comprar, mas como por aqui tudo eh novidade, tudo bem. O milk-shake de chocolate Hersheys eh um absurdo de bom - disso eu certamente sentirei falta. Mas sabem o que mais me chocou? - Reparar, hoje pela manha, que eles servem bananas verdes no cafeh... Eca. E nao reclamem da falta de acentos e cedilhas. Estou postando em teclado adverso, num grande esforco de reportagem.

28.9.05

A não-morte anunciada de Terry

É isso, gente. Depois de quase uma década de serviços prestados, Terry Schiavo será substituída. Ela vai dar lugar a um Pentium 4 com capacidade de processamento dez (!!!) vezes maior que a sua, com direito a internet banda larga e Windows XP. Mas se engana quem pensa que meu bom e velho 333 sucumbirá em esquecimento e ignonímia. Minha ilustríssima genitora, que inicia seus passos pelas sendas da informática, pediu a Terry de herança. E pedido de mãe não se nega. A decisão final pela substituição de tão nobre e literal panela velha veio do fato de que, indo a Washington - aliás, estou embarcando na sexta! Boa viagem para mim! - resolvi comprar uma câmera digital. Mas para brincar com tal aparato, vou precisar de uma máquina decente...
Tá bom, tá bom... Eu confesso: não joguei Neverwinter, Freelancer, nem Knights of the Old Republic. E podem estar certos de que em outubro eu vou à forra em grande estilo! Quanto a Terry, ela ainda tem um longo futuro pela frente, sob nova tutela. Indignada e traída, a virtual highlander mandou dizer que vai nos enterrar a todos!

21.9.05

Enquanto isso, em algum consultório...

O relato que segue - verídico, por mais incrível que possa parecer - vem de uma amiga de faculdade da minha namorada. Jornalista recém-formada, é figura das mais simpáticas e engraçadas. A identidade da moça não será divulgada para proteger sua privacidade, e porque eu, abusado, simplesmente não pedi permissão para reproduzir o texto. Mas a desculpa... ops! O motivo oficial é a necessidade de manutenção do sigilo na relação médico-paciente. Muito embora vocês possam perceber, pelas próximas linhas, que todo o mais nesta relação - incluindo a mais pálida noção de civilidade - foi mandado para o quinto dos infernos por um tresloucado doutor:
Não, não estou repassando nenhuma mensagem enviada por amigos via e-mail.
Ouvi hoje, às 7h30 da manhã, do meu oftalmologista enquanto estava sentada numa daquelas milhares de maquininhas em que temos que encaixar a testa e o queixo, e ficamos olhando nossos próprios olhos no reflexo de algo que não sei o que é.
Médico: Tá precisando fazer as sobrancelhas, né?
Eu: ...
Médico: Olha só, cresce mais de um lado do que de outro...
Eu: ...
Médico: Você depila com cera ou pinça? Minha esposa diz que com cera dura mais.
Eu: ...
Médico: É muito comum termos essa falta de proporção no crescimento dos pêlos no corpo, sobrancelhas, pelo dos braços e pernas, e até mesmo dos genitais.
Eu: !!!!!
Médico: Quando eu era jovem, conheci uma menina que parecia uma rabino de um lado e um skinhead do outro, era curioso.
Eu: ...!!!...!!!...!!!...!!!...!!!...!!!

Enfim. O que pensar de um dia que começa assim? Vc se prepara pra tudo, né? Qq coisa pode acontecer! Depois eu falo, neguinho acha que eu tô de sacanagem... Vou andar com um gravador na bolsa.

Pqp.

14.9.05

Packing my bags

Bem que a vovó já falava: cuidado com o que você quer, porque seu desejo pode se realizar. Pois é. Eu sempre quis fazer jornalismo viajando. Investi na profissão por acreditar que com ela não cairia em rotinas de escritório (...) Nos últimos meses, as viagens estão abundando. Nas últimas novas, nem eu acreditei. A ficha só caiu hoje, depois de um almoço com a Adida de Imprensa do Consulado dos Estados Unidos no Rio. Estou indo para Washington. Dois dias na capital americana, e dois dias em Atlanta, acompanhando um programa governamental de incentivo a pequenas empresas. Mamãe ficou super orgulhosa.

6.9.05

La Petit Mort

Abriu porta da varanda de forma lenta e deliberada. O vento lambeu seu rosto e braços, arrepiando pêlos e trazendo-lhe a lembrança dos passeios de bicicleta pelas ladeiras da infância. Não estava frio, apenas confortável. Ele sabia que tinha uma reunião importante pela manhã, mas entendeu que, se havia despertado com o uivo fraco mas insistente à janela, poderia muito bem aproveitar o céu de estrelas e lua nova. Coçou gentilmente a barba por fazer, a fricção aquecendo-lhe levemente as mãos, e foi até a geladeira sem acender as luzes no caminho. Apanhou uma garrafa de vinho tinto, buscou o romance que repousava na cabeceira da cama, e voltou ao amplo balcão externo, onde o vento que o acordara havia se transfomado em suave brisa. Acomodou-se em uma espreguiçadeira para ouvir a maresia e cheirar a chuva que já não caía, mas deixara uma fina camada de umidade sobre as plantas. Serviu-se uma taça, o gorgolejar do vinho ao deixar a garrafa saciando-lhe os ouvidos em uma madrugada atipicamente silenciosa, e perfeitamente sua. Abriu o livro. Estava mais ou menos no meio do segundo parágrafo quando uma pomba imaculadamente branca pousou no alambrado, e arrulhou um alô que só ele, entre todos os seres humanos, poderia entender. Como uma criança, devolveu o ruído. O bicho lhe sorriu e alçou vôo. Retornou ao livro, e nele permaneceu até pesarem os olhos. Estava recolhendo taça e garrafa, pronto para voltar para a cama, quando percebeu uma luz se acendendo no prédio em frente. Do outro lado da rua, uma mulher esguia, quase impossivelmente longilínea, chegava também à varanda. Usava uma camisola de seda preta que dispersava uma luminiscência tremulante ao sabor do vento - o mesmo vento que à primeira lufada delineou de forma gradual mas firme os jovens mamilos, em seios que ele não conseguiu decidir se eram pequenos ou fartos. A visão paralisou-o por alguns instantes pela pura beleza, e por não mais de um momento teve a ceteza de que, apesar da distância, os olhos dela - palidamente azuis em baixo contraste com a alva compleição da face - cruzaram com os seus. O encontro não foi instintivo, tampouco espiritual. Residiu no inefável, no indefinível. Sob o manto negro respingado de luz daquela noite sem lua, dançaram uma paradoxal sinfonia de nota única, eterna em sua brevidade. Ele apenas sorriu e voltou para o quarto. Ela abriu uma garrafa de vinho.

3.9.05

Aonde eu vim parar

Pode parecer um baita programa de índio, e sob muitos aspectos, de fato é. Mas o que eu pensei que fosse a furada do século, está se mostrando uma viagem até que interessante. Estou postando de Angicos, semi-árido do Rio Grande do Norte. Mais uma sessão do banho de povo que o Lula está tomando para tentar - a meu ver da pior forma - descolar-se da crise. "Mas como ele foi parar em Angicos?!" - vocês vão perguntar... Bem, avião até Natal, e carro alugado em direção ao interior do estado. Deu para observar, em primeira mão, a mudança de clima e vegetação que eu só tinha estudado no colégio, e não veria sob outras circunstâncias, porque não me parece, exatamente, uma opção turística. É sim, sob muitos aspectos, uma paisagem desoladora, mas me levou a repensar um bocado de coisas. Nós, das áreas nobres das metrópoles, temos mania de reclamar de tudo. Aqui a gente vê uma outra face da nação. E olha que eu nem cheguei no sertão. O povo, humilde, abre sorriso só em saber que você é de fora. Querem saber de tudo, perguntam um monte de coisas. Abastecer o carro foi uma experiência. Quando disse para o frentista emitir nota em nome da Rádio Globo, foi uma sensação. Mesmo os colegas olham diferente. E eles são jornalistas, tanto quanto (...) Seria mais cômodo estar apresentando o programa do estúdio, mas dessa vez estou curtindo a cobertura. Talvez pelo tom de aventura - pegar a estrada com o mapa na mão e ter a chance de observar um monte de coisas. Tá que eu quase atropelei um jegue, mas isso é outra história. Agora, a cerejinha: Lula cancelou seus compromissos em Natal. Se tudo der certo, ainda vou passear nas dunas hoje à tarde. Que triste, não?

25.8.05

Genial

Recebi por e-mail de uma amiga. O crédito, supostamente, é de uma aluna de Letras da Federal de Pernambuco. De qualquer forma, é um daqueles textos a cujo final se chega com uma ponta de saudável inveja: "cara, eu queria ter escrito isso!"
Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino singular. Era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar em que ninguém mais pudesse ver e ouvir.
Sem perder a oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a se movimentar: só que em vez de descer, subiu e parou justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Estavam conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo - todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram numa pontuação tão minúscula que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula... Ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras: estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais (...) ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.
Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta foi aberta repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos aos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e demandou seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que deixar que uma metáfora corresse por todo o edifício.
O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal... Que loucura, minha gente!! Aquilo não era nem comparativo: eraum superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo oral, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino. O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, e pensando em seu incólume infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

23.8.05

De volta à República dos Nerds

Para quem é do Playstation 2 ou do PC: depois de tempos resistindo à idéia de embarcar em um game que certamente iria (vai) me consumir meses, caí na tentação de alugar Grand Theft Auto - San Andreas. Recomendo muitíssimo. Todo o prazer mórbido de se fazer um strike de pedestres à beira da praia e fugir em alta velocidade da polícia ao alcance das mãos. Para não mencionar a delícia de incendiar a casa de um gangsta rival com vários molotovs, só para salvar a namorada dele no meio da confusão e roubar a garota. E imaginem só as risadas quando, ao ser deixada em casa, a personagem se apresenta como... Denise!
Tá, tá, eu sei que é geek. Mas eu nunca neguei que sou um nerd de coração.

16.8.05

Mais do mesmo

Tá, tá... Eu sei que há séculos o assunto predominante por aqui é a crise política. Acho até que devo ter perdido uns três leitores, o correspondente a quase 99,78% dos passantes, segundo dados da mais recente pesquisa Vox populli de inclusão e aprovação digital de conteúdo. Perdoem se me tornei um mala da CPI - sem trocadilho, por favor!!
É que as últimas semanas andam tão morninhas...